Em
1985, quando cheguei na América para realizar
minha especialização em ecocardiografia
pediátrica e fetal, meu primeiro filho
Victor tinha 5 meses. O inverno em Boston rapidamente
chegou e com ele o martírio de entreter
uma criança engatinhando e aprendendo a
andar, trancada em casa por causa da neve. Ai
que saudade do meu país quentinho, pensava
eu! A única opção era a televisão,
com muita "Vila Sésamo", que
eu assistia com o meu filhote sempre que possível.
Logo me chamou a atenção a quantidade
de entidades beneficentes que faziam campanhas
de doação de fundos para ajudar
crianças com câncer, leucemia, doenças
genéticas, paralisia, etc. Ao longo de
dois anos percebi que grupos de mães e
pais se reuniam em associações sem
finalidade lucrativa com o objetivo de repartir
experiências e se ajudar mutuamente. A razão
era simples: NÃO SE SENTIR SÓ! Quem
melhor para entender a doença de um filho
do que outra família que passa ou passou
pela mesma coisa? Quem melhor poderá ajudar
uma mãe desesperada de medo de perder seu
filho cardíaco, senão aquela, que
já trilhou o incerto caminho das cirurgias
de alta complexidade e saiu vitoriosa?
Percebi que ao passar a diagnosticar, cada vez
mais casos de gestantes, em cujo ventre crescia
um bebê com o coraçãozinho
doente, além da minha ajuda médica
senti que era preciso mais. Lembrei das associações
americanas, e sempre que um caso era bem sucedido,
pedia para aquela mãezinha aceitar dar
o número de seu telefone para dividir suas
experiências com outras gestantes cujos
bebês tivessem problemas semelhantes, desesperadas
com a descoberta que o tão esperado bebê
"normal" não viria. Dessa forma,
formou-se pouco a pouco um círculo do coração,
que tomou forma e se reuniu em um grupo pela força
e união da Tula, que conheceu a Silvia,
que ligou para a Gislene, que ligou para a...
Bem, o tempo passou, meu bebê Victor já
tem 19 anos e ver essa meninada crescendo é
a minha maior recompensa. As buchechinhas do Paulinho,
as peraltices do David e a lindurinha que ficou
a Tauana, após tanto trabalho que deu para
comer! Quando os ouço me chamando de "Dotola
Lila", alegres e brincando, acho que a vida
foi e sempre será, um milagre conquistado
todos os dias pela coragem dessas crianças
que tão cedo enfrentaram dores, privações
e limitações. Que Deus os abençoe
e abençoados sejam seus pais!